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I - RELAÇÃO DE MONÓLOGOS PARA ATRIZES

SENHORA PAGE - Como! Das cartas amorosas escapei no bom tempo de minha beleza, para tornar-me agora assunto delas? Vejamos! () : "... Direi apenas: ama-me! Do teu Cavaleiro que ao claro luzeiro do sol ou candeeiro por ti, prazenteiro, saudara o coveiro, lutando primeiro com o mundo inteiro. John Falstaff." Que Herodes da Judéia será este? Oh mundo perverso! perverso! Um sujeito quase de todo roído pela idade, e que se comporta como um moço conquistador! em nome do diabo, que gesto refletido de minha parte poderá ter surpreendido esse bêbedo flamengo em minhas conversações, para ousar assaltar-me por esse modo? Como! Não chegou a conversar comigo nem três vezes! Que lhe poderia ter eu falado? De todas essas vezes fui muito frugal com relação à minha alegria - o céu que me perdoe! - Ora essa! Vou apresentar no parlamento uma lei para supressão de todos os homens. De que modo poderei vingar-me? Sim, porque vingada hei de ser, tão certo como serem feitas de pudim as minhas vísceras.
(As alegres comadres de Windsor, Ato II, Cena I)

CONSTANÇA.- Guerra! Guerra! Nada de paz! A paz é para mim uma guerra! Ó Limoges! Ó Áustria! Desonras esse despojo sangrento! És um miserável, um infame, um covarde! Pequeno em valor, grande em vilania! Sempre forte ao lado do mais forte! Campeão da Fortuna, que jamais combate, a não ser quando esta caprichosa senhoria está a teu lado para ensinar-te a segurança! És também um perjuro e adulas a grandeza! Eras um louco, um louco rampante, ao envaidecer-te e selar e jurar a defesa de minha causa! Velhaco de sangue frio, não falavas como o trovão em meu favor? Não juraste ser meu soldado, pedindo-me que me confiasse a tua estrela, a tua sorte e o teu poder? E agora passas para o lado de meus inimigos! Usas pele de leão; tira-a, por vergonha, e coloca sobre teus ombros covardes uma pele de cordeiro!
(Vida e morte do Rei João, Ato III, Cena I)

OFÉLIA: (canta) "Levaram-no a enterrar sem cobertura...Tra-lá, la-rá! Quanto choro lhe rega a sepultura! Adeus, pombinho!" Como reconhecer em meio à turba o jovem meu amado? Pelo chapéu de conchas, as sandálias, e mais pelo cajado. [...] Que dizeis? Escutais, vos peço, agora: Senhora, ele se foi; não mais existe; morreu; nada mais ousa. À cabeça lhe nasce um tufo de erva; sobre o corpo uma lousa. Oh! Oh! Por favor, escutai (Canta) "Como um monte de neve era a mortalha enfeitada de flor; orvalhada baixou para o sepulcro, pelo pranto do amor." [...] Dizem que a coruja era filha de um padeiro. Sabemos, senhor, o que somos, mas não o que viremos a ser. Deus assista na vossa mesa. [...] Por favor, não falemos mais disso; mas se vos perguntarem o que significa, dizei-lhes: Raiou o dia de São Valentim; de pé todos estão. Para ser vossa Valentina, irei pôr-me à janela, então. Ela se alça depressa, a roupa veste e a porta lhe franqueou, fazendo entrar a virgem, que, assim, virgem, não mais ali passou.
(Hamlet, Ato IV, Cena V)

LUCIANA.- E é possível que tenhais esquecido até esse ponto os deveres de um marido? Antífolo, os primeiros brotos do amor virão estragar-se na primavera do afeto? O edifício iniciado por ele já ameaça desmoronar? Se casastes com minhã irmã por causa do dinheiro que ela possui, embora seja por este motivo, tratai-a com mais consideração; ou se amais uma outra, procedei mais ocultamente. Encobri vosso pérfido carinho com alguma aparência de mistério e que minha irmã não o leia em vossos olhos. Que vossa língua não seja o órgão de vossa própria humilhação; o aspecto afável, as palavras corteses, condizem com a deslealdade. Dá ao vício a aparência da virtude. Mostrai uma atitude simpática, embora vosso coração seja culpado; ensinai o pecado a ter uma atitude de santo; sede pérfido em silêncio. Para que revelar-lhe tudo? Que ladrão é bastante simples para gabar os próprios delitos?
(A Comédia dos Erros, Ato III, Cena II)

JULIETA -Espalha tua cortina, ó noite, guarda dos amores, porque os olhos curiosos nada vejam e a estes braços Romeu se precipite, de manso e sem ser visto. Os namorados enxergam no ato do amoroso rito, pela própria beleza; ou então, se é cego, de fato, o amor, diz bem com a negra noite. Vem, noite circunspecta, com teu manto de matrona severa, todo preto, e me ensina a perder uma partida que já está ganha e em que se jogam duas virgindades sem mancha. Ao rosto sobe-me o sangue tímido; em teu manto envolve-o, até que o amor esquivo, já se tendo tornado corajoso, só inocência veja no ato do amor sincero e puro. [...] Vem, gentil noite! vem, noite amorosa de escuras sobrancelhas! Restitui-me o meu Romeu, e quando, mais adiante, ele vier a morrer, em pedacinhos o corta, como estrelas bem pequenas, e ele a face do céu fará tão bela que apaixonado o mundo vai mostrar-se da morte, sem que o sol esplendoroso continue a cultuar. Comprei a casa de um amor, sem estar na posse dela; vendida embora me ache, possuída não fui ainda.
(Romeu e Julieta, Ato III, Cena 2)

TAMORA.- Parai, irmãos romanos! Generoso conquistador, vitorioso Tito, tem piedade das lágrimas que eu verto, lágrimas de uma mãe apaixonada pelo filho; e, se alguma vez teus filhos te foram caros lembra-te de que meu filho me e caro também. Não basta que sejamos trazidos a Roma, para embelezar tua volta triunfal, teus cativos e submetidos ao jugo romano? Terão ainda meus filhos que ser degolados nas ruas por haverem defendido valentemente a causa de seu país? Oh! se é um dever de piedade para os teus combater pelo príncipe e pela pátria, é, também, um dever de piedade para eles. Andrônico, não tinjas de sangue tua tumba. Queres aproximar-te da natureza dos deuses? Aproxima-te deles, sendo clemente: a doce piedade é o símbolo da verdadeira grandeza. Três vezes nobre Tito, poupa meu filho primogênito.
(Tito Andrônico, Ato I, Cena única)


I - RELAÇÃO DE MONÓLOGOS PARA ATORES

SHYLOCK - Ele me humilhou, impediu-me de ganhar meio milhão, riu de meus prejuízos, zombou de meus lucros, escarneceu de minha nação, atravessou-se-me nos negócios, fez que meus amigos se arrefecessem, encorajou meus inimigos. E tudo, por quê? Por eu ser judeu. Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito. Se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofender a um judeu, qual deve ser a paciência deste, de acordo com o exemplo do cristão? Ora, vingança. Hei de por em prática a maldade que me ensinastes, sendo de censurar se eu não fizer melhor do que a encomenda.
(O Mercador de Veneza, Ato III, Cena 1)

PAROLLES - Quanto mais depressa cair a virgindade, com tanto maior rapidez irá o homem pelos ares. Mas quando recair na brecha que vós mesmos fizestes, já tereis perdida a cidade. Não há medida política na república da natureza capaz de preservar a virgindade. Sua perda é de utilidade para a população. Não há virgem que não houvesse nascido de uma virgindade perdida. É do metal de que fostes feita que procedem todas as virgens; perdida uma vez a virgindade, poderá ser encontrada dez vezes; mas se ficar muito guardada, estará para sempre perdida. Não há companhia mais fria do que ela. [...]. A virgem é igual ao indivíduo que se enforca; a virgindade se suicida, e deveria ser enterrada nas estradas, longe dos lugares santificados, tal como se faz com os desesperados, que procedem contra a natureza. A virgindade procria gusanos, como o queijo, gasta-se até à casca e morre devorando o próprio estômago. Além do mais, é rabugenta, ociosa, altiva e composta exclusivamente de egoísmo, que é o pecado mais condenado nos mandamentos. Não a conserveis, que só tereis a perder. Fora com ela! (Tudo bem quando termina bem, Ato I, Cena I)

FALSTAFF - Oh! Ireis ouvir, mestre Fontes, quanto sofri por vosso bem, para levar essa mulher para o mal. Uma vez comprimido no cesto, a mulher do Ford chamou dois biltres, criados do marido, e lhes ordenou que me levassem para o prado de Datchet, como se se tratasse de roupa suja. Mal tinham esses atravessado a porta, com o cesto nos ombros, quando entrou o amo, que lhes perguntou uma ou duas vezes o que levavam dentro do cesto. Eu tremia, de medo que o lunático fosse revistar o cesto. Mas o destino, por querer que ele se torne, realmente, cornudo, deteve-lhe as mãos. Muito bem. Ele entrou, para revistar a casa, enquanto eu saía como roupa suja. Mas ouvi o resto, mestre Fontes. Sofri as dores de três mortes consecutivas: primeiramente, o pavor insuportável de ser apanhado por aquele carneiro de chocalho, podre de ciúmes; depois, ser dobrado em círculo, como uma lâmina de Bilbao, no interior de uma quartilha, o punho junto da ponta, o calcanhar na cabeça; e, por último, ser arrolhado, como qualquer bebida forte, com roupas fedorentas que fermentavam em sua própria gordura. Imaginai só, um homem com os meus rins! Imaginai só, mestre Fontes! Imaginai só!
(As Alegres Comadres de Windsor, Ato III, Cena 5)

 

PRÓSPERO - Escravo abominável, carecente da menor chispa de bondade, e apenas capaz de fazer mal! Tive piedade de ti; não me poupei canseiras, para ensinar-te a falar, não se passando uma hora em que não te dissesse o nome disto ou daquilo. Então, como selvagem, não sabias nem mesmo o que querias; emitias apenas gorgorejos, tal como os brutos; de palavras várias dotei-te as intenções, porque pudesses tomá-las conhecidas. Mas embora tivesse aprendido muitas coisas, tua vil raça era dotada de algo que as naturezas nobres não comportam. Por isso, merecidamente, foste restringido a esta rocha, sendo certo que mais do que prisão tu merecias. [...] Fora daqui, filho de feiticeira! Vai buscar lenha e não demores nada, e o que te digo, que ainda tens serviço. Ah! Pouco se te dá, demônio? Caso negligencies ou faças de mau grado quanto estou a mandar, com velhas cãibras a tratos ficarás, cheios teus ossos de dores lancinantes, que te obriguem a rugir de tal modo, que até as feras hão de tremer à tua gritaria.
(A tempestade, Ato I, Cena II)

ROMEU - Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo. (Julieta aparece na janela.) Mas silêncio! Que luz se escoa agora da janela? Será Julieta o sol daquele oriente? Surge, formoso sol, e mata a lua cheia de inveja, que se mostra pálida e doente de tristeza, por ter visto que, como serva, és mais formosa que ela. Deixa, pois, de servi-la; ela é invejosa. Somente os tolos usam sua túnica de vestal, verde e doente; joga-a fora. Eis minha dama. Oh, sim! é o meu amor. Se ela soubesse disso! Ela fala; contudo, não diz nada. Que importa? Com o olhar está falando. Vou responder-lhe. (Cantarola baixo) Não; sou muito ousado; não se dirige a mim: duas estrelas do céu, as mais formosas, tendo tido qualquer ocupação, aos olhos dela pediram que brilhassem nas esferas, até que elas voltassem. Que se dera se ficassem lá no alto os olhos dela, e na sua cabeça os dois luzeiros? Suas faces renitentes deixariam corridas as estrelas, como o dia faz com a luz das candeias, e seus olhos tamanha luz no céu espalhariam, que os pássaros, despertos, cantariam. Vede como ela apóia o rosto à mão. Ah! se eu fosse uma luva dessa mão, para poder tocar naquela face! (Cantarola)
(Romeu e Julieta, Ato II, Cena 2)

DOM PEDRO - Vou te contar como Beatriz elogiou há dias o teu espírito. Eu dissera que tu tinhas um espírito muito fino. "É certo", respondeu, "fino e pequeno". "Não", disse eu, "um espírito grande". "Exatamente", retrucou-me, "um espírito grosso". "Não", prossegui, "um bom espírito". "Nada mais acertado", revidou-me, "por que nunca fez mal a ninguém". "Contudo", disse-lhe, "é um rapaz muito prudente". "Pois não", respondeu-me, "prudência é o que não lhe falta". "E o que é mais", continuei, "fala diversas línguas". "Acredito", disse-me ela, "que de uma feita ele me afirmou uma coisa na segunda-feira à tarde e a desmentiu na terça pela manhã. A isso se dá o nome de língua dupla, por serem duas línguas, em verdade". Desse modo, por mais de uma hora, ela deformava todas as tuas qualidades, até arrematar o discurso com um suspiro e confessar que eras o mais perfeito homem da Itália.
(Muito barulho por nada, Ato V, Cena I)

 

Obs.: Todos os monólogos acima foram retirados de textos de William Shakespeare


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