A
ALQUIMIA DOS CORPOS EM MOVIMENTO
NOS NOVOS ESPETÁCULOS DO BTCA
Nehle Franke e João Perene
assinam duas coreografias inéditas
O Balé Teatro Castro Alves apresenta
ao público o resultado de dois projetos
inéditos lançados este ano:
o BTCA Residência e BTCA Convida.
O espetáculo, em cartaz na Sala Principal
do TCA, nos dias 31 de maio e 1 de junho,
às 20 horas, e 2 de junho, às
19 horas, vai reunir as coreografias “O
Azul de Klein” com a participação
da companhia João Perene –
Núcleo de Investigação
Coreográfica, e “s/título”
– inspirado em ‘A Hora em que
não sabíamos nada uns dos
outros’, de Peter Handke, com direção
de Nehle Franke. Os ingressos (inteira)
custam R$ 20 (filas A a W) e R$ 10 (filas
X a Z11).
“Esse trabalho está inserido
nas novas propostas de atuação
para o BTCA, que incluem o diálogo
com as companhias de dança independentes
e a pesquisa de novas linguagens para a
dança contemporânea”,
afirma Paullo Fonseca, que assumiu em janeiro
a direção artística
do Balé, agora sintonia com as diretrizes
políticas da Diretoria de Dança
da Fundação Cultural do Estado
da Bahia (FUNCEB). Ele assinala que: “Antes,
os bailarinos eram somente executores das
coreografias. Hoje, eles são intérpretes-criadores,
e participam ativamente de todo o processo
de montagem”.
Parte dos ingressos do dia 2 será
destinada a escolas e instituições
culturais e comunitárias de Salvador,
visando à formação
de platéia. Informações
pelo telefone (71) 3339- 8091. Após
a estréia na capital, o espetáculo
será levado ao público do
interior baiano, com apresentações
nos Centros de Cultura, durante o mês
de julho, com apoio da Secretaria de Cultura
do Estado, através da Fundação
Cultural e do Teatro Castro Alves.
“O AZUL DE KLEIN” -
A companhia João Perene – Núcleo
de Investigação Coreográfica
completa em 2008 cinco anos de fundação,
e teve o seu projeto de residência
coreográfica aprovado pelo BTCA.
Foram três meses de atividades e ensaios.
“É um presente estar comemorando
com o BTCA, que sempre foi a minha referência
em termos de dança na Bahia. Essa
troca de corporalidade entre uma companhia
oficial e uma companhia independente calhou”,
afirma o coreógrafo João Perene.
O resultado dessa experiência que
uniu bailarinos das duas companhias é
a coreografia “O Azul de Klein”,
inspirada na vida e obra do pintor e escultor
francês Yves Klein (1928 – 1962).
O International Klein Blue foi patenteado
nos anos 50 pelo próprio artista,
que pesquisou e tentou aplicar a cor às
suas telas por muitos anos. Ele considerava
o matiz intenso uma reprodução
perfeita do céu de Nice, sua cidade
natal. “Um azul quase escandaloso
de tão azul” (Suzana Villaverde
– Revista Veja). A partir dos anos
80, o “azul Klein” caiu no gosto
da indústria mundial da moda.
Alquimia em movimento
- “Estamos trabalhando não
com o belo, mas com o sublime; a alquimia
das cores que esse artista sempre perseguiu”,
explica Perene. “Vamos transformar
o palco em uma tela em branco que a gente
vai pintar com esse azul. Os homens representam
as imagens; as mulheres, as tonalidades”.
O coreógrafo, que costuma pesquisar
os movimentos de alto impacto físico,
acabou criando uma terceira linguagem, “com
movimentação orgânica,
aproveitando o virtuosismo técnico
do BTCA”. “Azul de Klein”
é “a alquimia do corpos em
movimento” e, durante 40 minutos,
o palco do TCA será transformado
em uma grande instalação,
“com uma luz especial que pode causar
estranhamento, mas é isso que a gente
quer”, avisa Perene, revelando que
a iluminação do francês
Gerard Laffuste não será uma
luz convencional de teatro e dança.
A música foi especialmente composta
pelo cubano Pepe Cisneros. O cenário
é de Gilson Rodrigues, e o figurino,
do próprio João Perene.
YVES KLEIN (1928 -1962)
- Pintor e escultor francês, foi desde
cedo influenciado pela arte abstrata. Começou
as primeiras pinturas em 1946, quando conheceu
o pintor e escultor franco-americano Arman
(1928-2005), a quem se associou no movimento
Novo Realismo. Em 1950 expôs em Londres
os seus primeiros trabalhos e, em 1953,
em Tóquio, Japão, exibiu uma
série de pinturas monocromáticas.
Em 1956, alcançou grande notoriedade,
sobretudo através da exposição
Yves: Propositions monochrome, em Paris.
Em 1958 executou as primeiras antropometrias:
impressões de corpos femininos cobertos
em azul. E também apresentou os primeiros
quadros vazios. Klein trabalhou com impressões
metafísicas e filosóficas,
especialmente os conceitos da tradição
Zen, como o vazio pelo qual se chega ao
Nirvana, a zona livre das influências
do mundo.
BTCA/elenco: Ajax Vianna,
Denílson Couto, Lila Martins, Malu
Fiquerôa, Paty Nunes, Rosa Barreto,
Ticiana Garrido. Bailarinas Convidadas:
Idevan Delefrate e Camila Galvão.
Bailarinos convidados da Cia. João
Perene Núcleo de Investigação
Coreográfica: Marcley Oliveira, Norma
Santana, Jorge Santos e Márcio Fidelis.
“S/TÍTULO” –
INSPIRADO EM ‘A HORA EM QUE NÃO
SABÍAMOS NADA UNS DOS OUTROS’,
DE PETER HANDKE - Um texto sem
falas; somente rubricas. Um dos expoentes
do chamado teatro pós-moderno, sem
a trama cartesiana de começo-meio-fim,
mas que contém uma história.
Esse é o novíssimo desafio
do BTCA, na montagem dirigida pela diretora
teatral alemã residente no Brasil
desde 1994, Nehle Franke, em sua primeira
experiência com uma companhia exclusivamente
de bailarinos. “Para mim, ter encontrado
o mundo da dança é um processo
de aprendizado imenso, muito fértil
e enriquecedor”, comemora a premiada
diretora de espetáculos como “Divinas
Palavras”, “Roberto Zucco”
“O Poder do Hábito” e
“Murmúrios”. Suas montagens
exploram temas existenciais humanos e são
recheadas de impacto e inquietação.
Anônimos - O poeta,
escritor e dramaturgo austríaco Peter
Handke (1942) é considerado um dos
autores contemporâneos mais importantes
da língua alemã. O texto dessa
montagem, escrito em 1992, sugere uma praça
pública, onde centenas de transeuntes
desfilam suas vidas todos os dias. Nesse
ambiente, o público é o receptor,
convidado a refletir e discutir uma realidade
fragmentada, com personagens anônimos,
porém familiares a todos. O palco
vira uma praça que é muito
mais que uma praça: é um espaço
compartilhado onde muitas histórias
se cruzam, situações cotidianas
que vão do cômico ao trágico.
Nehle diz que esse espetáculo dá
muita liberdade em termos de linguagens.
“s/título” propõe
uma linguagem híbrida entre teatro
e dança, baseado na expressão
do corpo do intérprete. Os bailarinos
não são apenas os executores,
mas também os autores de uma criação
coletiva”, destaca.
Por sua vez, a atriz e assistente de direção,
Felícia de Castro, a convite de Nehle
Franke, trouxe para o BTCA uma vivência
de clown, “como preparação
para o que viria depois, a partir do desnudamento
do ser de cada bailarino e o aproveitamento
dos talentos individuais.” A cenografia
é de Igor Souza, Cinthia Santos e
Marcos Nunez, da Miniusina de Criação.
O figurino é assinado por Diana Moreira
e Alice Santos, também da Miniusina
de Criação. Já a trilha
musical foi concebida por Flexa II e consiste
num mosaico que explora as sonoridades urbanas.
BTCA/elenco: Agnaldo Fonseca,
Alice Becker, Dina Tourinho, Evandro Macedo,
Fátima Berenguer, Flexa II, Gilberto
Baia, Gilmar Sampaio, José Sampaio
(China), Konstanze Mello, Lílian
Pereira, Luis Molina, Luíza Meireles,
Solange Lucatelli e Sônia Gonçalves.
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