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"Um
trabalho para cima, que fala do amor em
todas as formas", assim Simone define
o seu novo álbum "Na Veia" |
Simone
volta a Salvador com turnê do seu novo
show
Em Boa Companhia
“Acalma a Bola, rola a bola, trata a bola,
limpa a bola que é preciso faturar. É
bom jogar com muita calma, procurando pela brecha
pra poder ganhar”. Os versos de Gonzaguinha
- compositor sempre presente na trajetória
de Simone - em Geraldinos e Arquibaldos sintetizam
um pouco a atual fase da cantora: no auge da
maturidade artística, estreia um show
essencial, sereno e fiel às próprias
convicções. Em Boa Companhia,
espetáculo oferecido pelo Circuito Cultural
Bradesco Seguros e Previdência, que teve
sua estreia nacional dia 18 de setembro no Rio
de Janeiro, com direção de José
Possi Neto é, antes de mais nada, um
show de Simone. Não é qualquer
cantor que pode se orgulhar de ter uma assinatura
tão marcante, independente do que ele
cante. Simone pode. E depois de quase quatro
décadas de uma bem sucedida carreira,
isso se evidencia como nunca antes. O que torna
possível um trabalho como esse, que contempla
compositores de universos tão distintos,
uma unidade da primeira à ultima faixas:
-
Eu sempre falei e cantei o amor. Para o disco
Na Veia, que dá origem a esta minha nova
turnê, liguei para todos os compositores
que me enviaram canções, ou até
mesmo os encontrei, e disse: é um trabalho
feliz, para cima, que fala do amor em todas
as suas formas, jeitos e maneiras – Simone
dá a pista.
Na
Veia é o primeiro disco de canções
inéditas da intérprete em cinco
anos – o último foi Baiana da Gema,
de 2004, no qual homenageou Ivan Lins. O resultado
é completamente distinto de seus trabalhos
anteriores, mas com cara de Simone. O amor,
um dos assuntos mais constantes na discografia
da intérprete, também predomina
neste novo show, mas sob um enfoque mais amplo:
não coincidentemente, a mulher, o sujeito
principal das canções aqui, expõe
livremente seus desejos, seduz, põe fim
à relação e também
anseia por liberdade. Tanto as composições
quanto a interpretação precisa
e sutil conferem uma abordagem contemporânea
e atual ao tema mais recorrente no cancioneiro
do Brasil, como explica José Possi Neto:
-
Em Boa Companhia é pra cima, o show da
paixão e do desejo. Ilustra bem o prazer
de Simone em se relacionar com o público,
afinal, ela é uma artista talhada para
o palco, e hoje está amadurecida, tem
domínio total do seu ofício. E
em termos de sonoridade, é o trabalho
mais contemporâneo dela nos últimos
20 anos.
E
essa paixão vem pelas mãos de
compositores em sua maioria já gravados
pela intérprete. Dividindo o roteiro
com a cantora, Zé Possi dá a pista:
“ Simone sempre cantou muito bem, como
poucas, temas de amor e sambas, portanto eles
estarão muito presentes no repertório.
O restante são as belas canções,
a maioria inédita, do novo disco, que
estará na íntegra”.
Mas
Simone também abre espaço para
um novo talento: de Paulo Padilha, compositor
da cena alternativa paulistana, ainda pouco
conhecido do grande público, inclui Love.
Adriana Calcanhotto comparece com duas: Definição
da Moça (sobre um texto de Ferreira Gullar)
e Certas Noites (com Dé Palmeira). Na
última, versos como “Certas noites
eu sou só do samba, eu sou da orgia/
Nessas noites você não me encontra,
meu bem/ Nem dentro da lei/ Às vezes
eu vou deixar a razão pela folia”
radiografam a mulher de hoje, independente e
decidida nas relações. Em díptico
também aparece Erasmo Carlos, seja na
inconformada letra de Migalhas, ou na ternura
de Hóstia, esta em parceria com Marcos
Valle – “ Apesar de já ter
gravado o Erasmo meninão, fiquei muito
feliz quando recebi esses presentes maravilhosos.
Ele mandou duas e eu gravei as duas”.
Autor
de clássicos na voz de Simone, como Jura
Secreta e Alma, Abel Silva também marca
presença com Pagando Pra Ver, um ‘blues
feliz’ segundo ele próprio, em
parceria com Nonato Luis. Martinho da Vila,
a quem a ‘cigarra’ já dedicou
um disco inteiro na década de 90, também
traz a novíssima Na Minha Veia (com Zé
Catimba). Em Boa Companhia segue na cadência
do samba com Paulinho da Viola, que marca presença
com Ame (“esta canção é
tudo que eu acho e acredito do amor”,
contextualiza a cantora) e Deixa Eu Te Amar,
um sucesso de Agepê, que aqui aparece
completamente despido e renovado, e chega até
a parecer um clássico de...Simone.
Continuando,
uma inédita de Marina, Bem Pra Você
(também com Dé Palmeira), e ainda
uma composição da própria
Simone, em parceria com Hermínio Bello
de Carvalho, de 76, que permaneceu inédita
até agora: “Vale a Pena Tentar
eu fiz há muito tempo, tanto a melodia
quanto a letra, e pedi para o Herminio terminar
o texto. Mas prefiro cantar...rs”.
Completam o roteiro do show Certas Coisas –
clássico de Lulu Santos - , além
de canções do repertório
de Simone que ela já não cantava
há muito tempo, como Tô Que Tô
(Kleiton e Kledir), Paixão (Kledir) e
Face a Face (Sueli Costa/Cacaso), esta última
do antológico álbum homônimo
de 1977. O restante são surpresas.
Em
Boa Companhia atesta, após 36 anos de
carreira, o gosto que a ‘cigarra’
tem em cantar ,e o quanto este prazer permeia
cada poro deste show, tornando-o, acima de tudo,
um espetáculo de Simone.
Além
da direção e de dividir o roteiro
com Simone, José Possi Neto assina também
a luz e a cenografia do esptáculo (com
Jean Pierre Tortil), esta última baseada
em sobreposições de transparências
e brilhos que conferem, no plano físico,
a leveza que permeia o conceito do espetáculo.